Para acelerar o mercado

Setor Automotivo brasileiro caminha para a retomada

Entre as tantas instabilidades de natureza política e econômica que caracterizaram o ano de 2016, o setor automotivo brasileiro, entre as demais áreas da cadeia produtiva, viu-se às voltas com um cenário de grandes incertezas e adversidades, aquém da eficiência performática de anos anteriores. Contudo, a movimentação deste mercado viveu momentos relevantes para a retomada de seu crescimento com iniciativas do governo brasileiro em negociações que abrangeram todo o circuito latino-americano, em especial, com a Argentina – principal destino de nossas exportações – para um acordo comercial de longo prazo.

O Brasil é um mercado promissor porque tem uma frota grande a ser renovada, além disso, tem uma população apreciadora de automóveis – carro novo é sinônimo de status social, diferentemente de outros países, como os europeus. Eventos como o Salão Internacional do Automóvel de São Paulo são um importante termômetro do segmento. O novo centro de exposições São Paulo Expo, onde se realizou a 29a edição, recebeu investimentos da ordem de R$ 400 milhões em 2016 e contabilizou mais de 715 mil visitantes, ratificando a intensa paixão do brasileiro por automóveis. A crise traz oportunidades e é o que se observa pelas ruas das cidades. Aquele modelo que estava fora de cogitação começa a chegar empacotado em um modelo comercial ao alcance do orçamento de consumidores que pouco foram atingidos pela crise.

Após o sinal vermelho

Segundo dados divulgados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), sobre os resultados do primeiro bimestre de 2017, o licenciamento de veículos novos indicou queda de 6,4% com 282,9 mil unidades vendidas contra 302,1 mil no mesmo período do ano anterior. “Já imaginávamos um primeiro trimestre difícil, o que está se concretizou. Mas o resultado de fevereiro surpreendeu negativamente. Começou positivo, mas declinou no final principalmente devido ao Carnaval no final do mês. Além do mês mais curto, presenciamos um impacto nos números motivado pelas paralisações no Espírito Santo, que também reverberou para o Rio de Janeiro. Estes fatores, além das dificuldades de financiamento, impactaram as vendas”, diz Antonio Megale, presidente da Anfavea.

No balanço setorial de 2016, a indústria automobilística decresceu 20,2%, perfazendo um total de 2,05 milhões de unidades de veículos licenciados frente aos 2,57 milhões de veículos vendidos no ano anterior. No comparativo mensal, o mês de dezembro registrou a melhor performance com 204,3 mil unidades negociadas, demonstrando crescimento de 14,7% ante novembro (178,2 mil unidades comercializadas), mas, em relação a dezembro de 2015 (227,8 mil transações), houve baixa de 10,3%. A produção do ano anterior, situada em 2,16 milhões de unidades, foi inferior em 11,2% quando defrontada com 2,43 milhões de veículos fabricados em 2015.

Setor se prepara para acelerar

Contrapondo-se aos resultados do mercado interno, os números da exportação em 2016 apontaram alta de 24,7% (520,3 mil unidades vendidas) comparado às 417,3 mil de 2015.

Ainda em contraste com os dados que indicam o desempenho recente do setor, o Brasil bateu em 2012 o recorde histórico de vendas ao licenciar 3,80 milhões de veículos novos, bem como obteve o melhor resultado em sua produção no ano de 2013 (3,71 milhões de unidades fabricadas).

Para Alarico Assumpção Júnior, presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), o mercado automotivo está entre os que mais sofrem com a crise econômica, retroagindo a volumes equivalentes aos anos de 2005 e 2006 devido a fatores como a queda acentuada do Produto Interno Bruto (PIB), incertezas geradas pela política e baixo índice de confiança do consumidor e de investidores. “Os índices econômicos já vêm apresentando bons números desde o início deste ano. Essas boas notícias trazem esperança aos nossos consumidores, que voltarão a comprar. O mesmo ocorrerá com as instituições financeiras, que fornecem crédito aos nossos clientes. O setor da distribuição automotiva emprega mais de 305 mil colaboradores diretos em mais de 7,4 mil concessionárias em todo o Brasil – três vezes mais que a indústria automobilística. Somos responsáveis por 3,5% do PIB nacional e hoje temos mais de 2.500 versões de carros disponíveis. Acreditamos encerrar 2017 com crescimento de 3,11% em relação aos resultados de 2016, para todos os segmentos”, avalia.

O Brasil, o Mercosul e a América Latina

O ensaio de proximidade que o Brasil empreende com relação aos países da América Latina, incluindo o setor automotivo, teve um importante avanço liderado pela iniciativa do governo brasileiro, que participou da primeira reunião conjunta de chanceleres e ministros de comércio, ocorrida no início de abril em Buenos Aires, na Argentina. O encontro promoveu uma agenda positiva entre os blocos do Mercosul e Aliança do Pacífico e sinalizou um processo de integração entre eles. Uma das principais razões para a aproximação adveio da preocupação sobre o caráter protecionista dos Estados Unidos, que convenceram as nações envolvidas a potencializar o comércio inter-regional. Para Rogério Lino Pereira, diretor de operações corporativas da Câmara de Indústria e Comércio do Mercosul e Américas, essa reunião é vista como uma importante coesão e abertura comercial na América Latina, seja para novos acordos entre os blocos ou até mesmo para ratificar os já existentes, ou ainda para as novas parcerias bilaterais. “Em meados de 2016, o Brasil renovou seu acordo bilateral com a Argentina até 2020, além de já contar com acordos bilaterais com Uruguai e Colômbia para importação e exportação de autopeças e veículos”.

Atualmente, estão em vigor os acordos do setor automotivo Mercosul/México (ACE-55) e Mercosul/Colômbia, Equador e Venezuela (ACE-59). O Brasil também possui acordos de livre comércio ou de preferências tarifárias com todos os países da Aliança do Pacífico no Brasil na cidade de Manaus (AM). Ainda no ano de 2014, a BMW Group inaugurou sua primeira fábrica da América do Sul para a manufatura de carros de luxo em Araquari (SC), injetando mais de R$ 600 milhões. “Os momentos de instabilidade econômica são importantes para fazermos investimentos, olhando a longo prazo. Desde o ano de 2014, empregamos R$ 5 milhões para dar suporte ao programa global de certificação e auditoria em funilaria e pintura na rede de concessionárias das marcas BMW e Mini. Oferecemos serviços de pós-venda voltados para os nossos clientes premium e para a realização das rotinas de manutenção rápida. Estes serviços são executados em até uma hora ou uma hora e meia incluindo lavagem”, destaca Helder Boavida, presidente e CEO do BMW Group Brasil.

Apesar da queda assinalada pelos demonstrativos de desempenho do setor automotivo nacional, contrariando as expectativas iniciais da companhia, Boavida observa que tanto a performance do mercado em geral, quanto a do segmento premium, foi reduzida à casa dos dois dígitos se comparadas a igual período do ano anterior, mas que há expectativa para um início de recuperação a partir de meados deste ano. Em sua visão, o futuro da indústria automotiva depende muito do sucesso do projeto que vai substituir o Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores (Inovar-Auto), que acaba em 31 de dezembro de 2017.

“Não podemos depender somente do mercado nacional. A possibilidade de expansão das nossas operações para a exportação vai depender da capacidade do Brasil de desenvolver tratados de livre comércio com outras regiões. Nosso crescimento e planos para o setor dependem do novo Inovar-Auto. Precisamos ter uma previsibilidade de no mínimo entre dez e 15 anos para decidir investir no país. Vale lembrar que em fevereiro deste ano anunciamos a extensão do programa de exportações na fábrica do BMW Group em Araquari. Conseguimos negociar a exportação de 12 mil unidades do BMW XI para os países do Nafta”, completa.

Fonte: América Economia

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